Retratos dos afro-iranianos, uma minoria desconhecida

20/11/2021


 Você sabia que assim como no Brasil, no Irã também existem descendentes de negros escravizados?  Por serem uma minoria étnica que habita principalmente o sul do Irã, estes povos são quase desconhecidos, embora apareçam em alguns filmes clássicos iranianos como O Corredor de Amir Naderi (1985) e O Dia em que me tornei Mulher de Marzieh Makhmalbaf (2000). Tenho recebido várias vezes em meus alertas do Google uma matéria do blog português Visão sobre os afro-iranianos, a qual já compartilhei em nossa fanpage. Neste post gostaria de mostrar especialmente o trabalho do  fotógrafo germano-iraniano Mahdi Ehsaei que documentou os afro-iranianos de maneira primorosa em seu projeto artístico Afro-Iran: The Unknow Minority. Confira alguma dessas maravilhosas imagens: 





“O olhar e o modo como os trovadores que hoje personificam Haji Firuz [o arauto do ano novo persa] cantam e dançam evocam a fisionomia e o dialeto africanos”, diz o fotógrafo Mahdi Ehsaei sobre uma figura que depois da abolição da escravatura no Irã, em 1928, ainda entoa rimas como “Meu Senhor, eleva a tua cabeça/ Meu Senhor, olhe para si próprio/ Meu senhor, por que não ri?” Haji Firuz foi um dos rostos negros que levou Ehsaei, 27 anos, a ir ao encontro de uma comunidade “desconhecida e ignorada”, no sul do Irã. O outro foi um homem que o cativou no estádio de Hafeziyeh, na cidade de Shiraz.




“É importante salientar que nem todos os escravizados na Pérsia eram africanos e que nem todos os africanos chegaram à Pérsia como escravizados”, esclareceu Ehsaei. “A Pérsia também tinha escravizados do sul da Rússia e do Cáucaso do norte, enquanto alguns marinheiros africanos vieram para trabalhar no Golfo Pérsico. A partir do início do século XVI, portugueses e espanhóis ocuparam gradualmente as ilhas de Qeshm [Queixume] e Ormuz, de grande interesse estratégico. A ocupação da costa africana ocidental deu aos portugueses acesso ao comércio de escravizados, que controlaram durante os mais de cem anos que dominaram o Golfo Pérsico.”
Muitos dos afro-iranianos descendem desses escravizados: bambassis, núbios e habashi. Os bambassi ou zanj, vieram de Zanzibar (atual Tanzânia), e países vizinhos – possivelmente Moçambique e Quênia (Mombaça). Os núbios vinham da Núbia e da Abissínia. Os habashi eram originários da Etiópia.





>> Este vídeo mostra o trabalho completo sendo folheado: 

   

🔗 Fonte: Visão | Fotos: Mahdi Ehsaei 

O poeta Jami

06/11/2021

Salam amigos! Hoje é o aniversário de um importante poeta místico persa do século XIII. Nureddin 'Abd ar-Rahmān Jāmī, conhecido simplesmente como Jami. Ele foi um  prolífico estudioso e escritor da literatura mística sufi e pertencia à ordem sufi Naqshbandi. Uma de suas obras poéticas mais famosas é o Haft Awrang (Os Cinco Tronos). No post de hoje, vamos conhecer mais sobre sua vida, obra e influência.  


A vida do poeta Jami 

Poeta persa Jami
Miniatura persa representando o poeta Jami (autor desconhecido)

Jami nasceu no vilarejo de Kharjerd (localizado na atual província de Razavi Khorasan) no Irã em 1414. Seu pai veio de Dasht, uma pequena cidade no distrito de Isfahan e foi seu primeiro professor. Alguns anos depois de seu nascimento, sua família migrou para Herat (atual Afeganistão), onde ele iniciou seus estudos em matemática, literatura persa, ciências naturais, língua árabe, lógica, retórica e filosofia islâmica na Universidade de Nizamiyyah. Em Herat, Jami ocupou uma posição importante na corte timúrida, como intérprete e tradutor, envolvido na política, economia, filosofia e vida religiosa da época. Posteriormente, ele foi para Samarcanda, o mais importante centro de estudos científicos do mundo islâmico na época, onde concluiu seus estudos.


O sobrenome de Jami era Dashti, mas ele escolheu usar Jami (da cidade de Jam no Afeganistão) por dois motivos que mais tarde mencionou em um poema:


Meu local de nascimento é Jam, e minha pena
Bebeu do (conhecimento de) Sheikh-ul-Islam (Ahmad) Jam
Inevitavelmente, nos livros de poesia
Por essas duas razões meu nome de poeta é Jami 

 

Sabe-se que Jami tinha um irmão chamado Molana Mohammad, que também foi um homem culto e mestre em música, que é mencionado em um de seus poemas no qual ele lamenta sua morte. Jami teve quatro filhos, mas três deles morreram antes de completar o primeiro ano. Seu único filho sobrevivente foi Zia-ol-din Yusef  para o qual ele dedicou sua obra  Baharestan (O Jardim da Primavera).

Jami faleceu provavelmente em novembro de 1492 na cidade de Herat. Seu funeral foi conduzido pelo príncipe de Herat e assistido por um grande número de pessoas que prestaram grandes homenagens a ele. O túmulo do poeta ainda se encontra nesta mesma cidade, no atual Afeganistão.

 

Em sua lápide está escrito: 


Quando seu rosto está escondido de mim, como a lua escondida em uma noite escura, eu derramo lágrimas de estrelas e ainda assim minha noite permanece escura, apesar de todas essas estrelas brilhantes.

Poeta persa Jami
Túmulo do Poeta Jami, em  Herat, no Afeganistão CC BY-SA 4.0 


As obras de Jami 


Jami escreveu aproximadamente oitenta e sete livros e cartas, alguns dos quais foram traduzidos para o inglês. Suas obras vão da prosa à poesia e do mundano ao religioso. Ele também escreveu obras de história e ciência. Além disso, ele frequentemente comenta o trabalho de teólogos, filósofos e sufis anteriores e contemporâneos. Sua poesia também foi inspirada pelos ghazals de Hafez, e sua obra mais importante, Haft Awrang (Os Sete Tronos), foi influenciada pelas obras de Nezami. 

O Haft Awrang,  escrito no estilo masnavi (distícos), é uma coleção de sete poemas. Cada poema conta uma história diferente, como Salaman va Absal, que conta a história de uma atração carnal de um príncipe por sua ama-de-leite. Ao longo dessa história, Jami usa o simbolismo alegórico  para descrever os estágios principais do caminho sufi, aproveitando para expor questões filosóficas, religiosas ou éticas. 

Jami também é conhecido por suas três coleções de poemas líricos que vão desde a juventude até o final de sua vida, chamadas Fatihat al-shabab (O Começo da Juventude), Wasitat al-'ikd (A Pérola Central no Colar) e Khatimat al-hayat (A Conclusão da Vida). Ao longo de toda sua obra, as referências ao sufismo  surgem como tópicos-chave. 

Poeta persa Jami
"Yusuf e Zuleikha" ilustração do manuscrito Haft Awrang de Jami, pintura por Behzād, 1488.


Jami e o Sufismo 


Em cada véu que você vê, a Beleza Divina está oculta, 
tornando cada coração um escravo dele.
No amor por ele, o coração encontra sua vida;
no desejo por ele, a alma encontra sua felicidade.

(Jami)

Em seu papel de sheikh sufi, que iniciou em 1453, Jami expôs vários ensinamentos a respeito de seguir o caminho  do sufismo Ele era conhecido por seu compromisso com Deus e seu desejo de se separar do mundo para se aproximar de Deus. 

Após seu ressurgimento no mundo social, ele se envolve em uma ampla gama de atividades sociais, intelectuais e políticas no centro cultural de Herat. Ele era seguidor da escola de Ibn Arabi, mas muitas vezes, não seguia sua metodologia, como na questão da dependência mútua entre Deus e suas criaturas, Jami, acreditava que "Nós e [Deus] não estamos separados um do outro, mas precisamos de[Ele] enquanto [Ele] não precisas de nós "

Além disso, Jami foi de várias maneiras influenciado por vários mestres sufis antecessores e contemporâneos, incorporando ideias deles às suas e desenvolvendo-as ainda mais, criando um conceito novo. Para ele, o amor ao profeta Mohammad era o degrau fundamental para iniciar uma jornada espiritual. Conta-se que para um aluno que pediu para ser seu pupilo, o qual alegou nunca ter amado ninguém, ele disse: "Vá e ame primeiro, depois venha a mim e eu lhe mostrarei o caminho".  


A influência das obras de Jami no mundo islâmico


Jami continua a ser conhecido não apenas por sua poesia, mas por suas tradições eruditas e espirituais no mundo falante de persa. Ao analisar o trabalho de Jami, a maior contribuição dele pode ter sido sua análise e discussão da misericórdia de Deus para com o homem, redefinindo a maneira como os textos anteriores foram interpretados.

As obras de Jami se tornaram populares no Oriente islâmico, na Ásia Central e no subcontinente indiano. Seu trabalho foi usado em várias escolas da Pérsia, de Samarkand a Istambul, assim como no império Mughal da Índia.

Durante séculos, Jami foi reconhecido por sua poesia e profundo conhecimento, porém nos últimos 50 anos, começou a ser negligenciado e suas obras esquecidas, o que reflete uma questão abrangente na falta de pesquisas de estudos islâmicos e persas.


A influência de Jami na arte persa 

Poeta persa Jami
Ilustração do manuscrito Baharestan (Jardim das Rosas) de Jami, de 1553.

Os escritos de Jami estão entre os mais frequentemente ilustrados na história da pintura de manuscritos persas (miniaturas persas). No século XV, a popularidade do sufismo levou à ascensão de obras literárias com conteúdo sufi entre os textos mais encomendados para ilustração. Durante o reinado do timúrida Ḥosayn Bayqara (1470-1506), a cidade de Herat, onde Jami residiu durante a maior parte de sua vida, tornou-se o centro da literatura e da produção de livros no mundo persa.

Os últimos anos da vida de Jami coincidiram, portanto, com o ponto alto na história da pintura em miniatura persa. A última década de sua vida também corresponde ao surgimento de mestres miniaturistas, incluindo Kamal-al-Din Behzad.

O patrocínio em larga escala da poesia e da pintura por membros da corte de Herat como o governamente Ḥosayn Bayqara e a própria posição de destaque de Jami, como poeta e mestre da ordem sufi Naqshbandi, provavelmente contribuíram para que suas obras servissem como temas para ilustrações de livros enquanto ele ainda era vivo. 

Talvez a mais notável e elaboradamente ilustrada entre as obras de Jami seja o manuscrito Haft Awrang  do período Safávida, que se encontra atualmente na Freer Galley of Art em Washington DC, com suas 28 miniaturas magistrais ​​executadas entre 1556 e 1565.


Onde encontrar traduções da obra de Jami


Atualmente, não existem obras de Jami traduzidas para o português, mas é possível encontrar versões e coleções de poemas em inglês:

📗 Divan of Jami

📗 Flashes of Light: A Treatise on Sufism (English Edition)

📗 Jami: Life & Poems (Introduction to Sufi Poets Series Book 23)

📗 Salaman and Absal (English Edition)


🔗Fontes:

JĀMI iii. And Persian Art - Encyclopaedia Iranica | Jami - Wikipedia

LIVE: O Poeta Hafez e sua influência na cultura do Irã

29/10/2021


NESTE SÁBADO, 30/10 ÀS 19H!


Neste mês de outubro, estamos homenageando o grande poeta persa Hafez de ShirazE o tema da nossa Live mensal é O Poeta Hafez e sua influência na cultura do Irã.

Quem é o poeta Hafez? Por que você deve conhecê-lo? E como acessar sua obra aqui no Brasil?

Hafez, foi um poeta persa que viveu no século XIV e passou a maior parte de sua vida em sua cidade natal, Shiraz. Ele é mais conhecido por seus ghazals (poemas de amor), que foram reunidos em uma coletânea conhecida como Divan.

No Irã moderno, o poeta Hafez é venerado como uma figura quase divina. Sua poesia é frequentemente cantada e ambientada na música clássica persa. Seu túmulo em Shiraz recebe visita de devotos, admiradores e turistas de todo o mundo.

🔴 A transmissão será ao vivo pelo canal do Chá-de-Lima da Pérsia no  YouTube.

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Por que os iranianos celebram o Dia do Rei Ciro?

Em outubro de 539 a.C., o rei persa Ciro, o Grande conquistou a Babilônia

Salam amigos! Hoje, os iranianos ao redor do mundo celebraram o dia internacional de "Ciro, o Grande", o rei da Pérsia, que foi o autor do primeiro estatuto dos direitos humanos da história do mundo, também conhecido como o Cilindro de Ciro

Uma celebração não oficial

O Dia de "Ciro, o Grande" (em persa Ruze Kurosh-e Bozorg) é comemorado por comunidades iranianas em diferentes países, como Irã, Estados Unidos e Reino Unido.

A observância não é oficial e não é designada em nenhum calendário oficial, nem no calendário iraniano, nem no da UNESCO. Em 2017, Bahram Parsaei, representante de Shiraz no parlamento iraniano, expressou o pedido popular para que esta fosse reconhecida como uma cerimônia oficial do estado.

A escolha dessa data que em alguns anos, cai no dia 28  e em outros no dia 29, no calendário persa corresponde ao dia  7 do mês de Aban, se dá porque os iranianos acreditam  ser este o dia do aniversário da entrada de Ciro na Babilônia. Em outubro de 539 a.C., o rei persa tomou a Babilônia,  antiga capital de um império oriental que cobria desde o Iraque moderno, até a Síria, o Líbano e Israel. 

Mas afinal, quem foi Ciro, o Grande?


Retrato de Ciro, o Grande

Ciro II, mais conhecido como Ciro, o Grande, foi rei da Pérsia entre 559 e 530 a.C. Fundador do Império Aquemênida, sob o seu governo, o império abraçou todos os estados civilizados do antigo Oriente Próximo e expandiu-se tanto a ponto de tornar-se o maior império que o mundo já havia visto. 

Ele também proclamou o que foi identificado por estudiosos e arqueólogos como a mais antiga declaração conhecida de direitos humanos, que foi transcrita no famoso Cilindro de Ciro entre 539 e 530 a.C.

Após ter morrido em uma batalha no Egito, Ciro foi sucedido por seu filho, Cambises II, que conseguiu aumentar o império conquistando o Egito, a Núbia e a Cirenaica durante seu curto governo.

Um modelo de governo e respeito aos povos conquistados

A fama deste grande rei também se deu por ter respeitado os costumes e religiões das terras que conquistou. Diz-se que na história universal, o papel do Império Aquemênida fundado por Ciro reside em seu modelo bem-sucedido de administração centralizada e no estabelecimento de um governo trabalhando em proveito e lucro de seus súditos. De fato, a administração do império através de sátrapas e o princípio vital de formar um governo em Pasárgada foram obras dele.  

Ciro, o Grande, também é bem reconhecido por suas conquistas em direitos humanos, política e estratégia militar, bem como por sua influência nas civilizações orientais e ocidentais. Tendo nascido em Pars, que hoje corresponde à moderna província iraniana de Fars, Ciro desempenhou um papel crucial na definição da identidade nacional do Irã moderno. 

Ciro e, de fato, a influência aquemênida no mundo antigo também se estendia até Atenas, onde muitos atenienses adotaram aspectos da cultura persa aquemênida como próprios, numa troca cultural recíproca.

A Celebração no Irã e no mundo 


Túmulo de Ciro, em Pasárgada, província de Fars

O "Dia de Ciro" é comemorado principalmente no Irã e por comunidades iranianas em outros países, como o Reino Unido e os Estados Unidos. No Irã, aqueles que querem honrar a memória de Ciro, o Grande, visitam seu túmulo em Pasárgada, a antiga capital do Império Aquemênida, que é hoje um sítio arqueológico na província de Fars, localizado a cerca de 60 km de Shiraz.

Em outubro de 2016, milhares de jovens organizaram uma manifestação em Pasárgada. Eles cantaram: "Ciro é nosso pai, o Irã é nosso país", em uma crítica ao atual governo do Irã. A fim de conter as manifestações, desde 2017, o governo fechou o local do túmulo durante 3 dias próximos a data da comemoração.

Baseado em Cyrus the Great Day - Wikipedia  | Real Iran 

Hafez de Shiraz: o poeta que vive na alma do povo do Irã

12/10/2021

O poeta Hafez de Shiraz, pintura de Mahmoud Farshchian

Salam amigos! Hoje no Irã (12 de outubro), é celebrado o Dia Nacional do Poeta Hafez. A data é no dia 20 do mês de Mehr do calendário persa, que dependendo do ano, corresponde ao dia 11 ou 12 de outubro do nosso calendário. 

No post de hoje, vamos conhecer um pouco da incrível trajetória histórica deste poeta místico persa que viveu no século XIV, mas cuja poesia ainda continua viva e pulsante no coração do povo iraniano na atualidade. 

De onde vem o dom da poesia de Hafez?

Conta-nos a escritora Gertrud Bell uma lenda segundo a qual o jovem Hafez, para conquistar o coração de uma moça, decidiu passar quarenta noites em um lugar situado a quatro milhas de Shiraz, chamado Pir-e Sabz, porque ali aparecia o profeta Khezr e concedia a quem houvesse cumprindo certo ritual, o dom da poesia. No entanto, na 39ª noite, a moça aceitou sua proposta e ele seguiu cumprindo seu ritual, até que o profeta desse a ele a taça que continha a água da imortalidade. 

Ainda que esta história seja uma lenda, de fato Hafez pôde através de sua poesia transformar o amor em criações literárias de grande magnitude. Assim como os arabescos das mesquitas iranianas, os versos de Hafez estão tão cheios de movimento que nos envolvem, ostentam um domínio técnico, uma clareza de imagens e uma melodia tais que só podem ser fruto de um criador inspirado e, sobretudo, inteligente e lúdico.

Através dos poemas de Hafez podemos detectar o regozijo de seu autor ao construir esse mundo singular e deslumbrante, como um mosaico formado de peças análogas que aparecem em posições distintas e mudando de contexto, de modo que o olho não tem repouso e é sempre envolvido pela surpresa. Isto explica porque seus poemas nunca envelhecem e que a cada leitura pareçam renovados, e que estejam ainda presentes no mundo persa atual como referência e ponto de apoio, tanto da vida cotidiano - pois a eles se recorrem para consultar o futuro - como na criação artística.

Retrato do poeta Hafez, pintura de Hojjat Shakiba

Um gênio em seu tempo e em seu estilo

Shams ud-Din Mohammad Hafez nasceu em Shiraz, capital da província de Fars, por volta do ano de 1320. Haviam transcorrido 60 anos da tomada de Bagdá por Hulagu Khan, um século da morte de Ibn Arabi (1240), 50 anos do falecimento do grande poeta místico Jalal ud-Din Rumi (1273), e alguns menos do desaparecimento de seu concidadão, também eminente lírico, Saadi (1291 ou 1292). Até então, a poesia persa havia alcançado altos patamares, tanto na épica romântica de Nezami, como no Masnavi, no rubai, na qasida de Anvari e o verso gnómico. Hafez, contudo, inaugurou seu próprio território no qual obteve destaque, pois apenas cultivou os gêneros qasida rubai, mas foi ao gênero ghazal, ao qual se entregou e renovou.

Pouco se sabe sobre a vida de Hafez, cujo apelido significa “aquele que sabe de memória o Alcorão”, e a quem também se referiam como “a língua do invisível” e “o intérprete dos segredos”, além de que fora um homem instruído. De origem humilde, começou a trabalhar em padarias, mas logo seu desejo pelo saber o levou às escolas mais famosas de sua cidade natal, onde adquiriu conhecimentos das ciências islâmicas ensinadas na época. 

Hafez também se tornou mestre em caligrafia, e acredita-se que trabalhou como copista de poemas, o que não o impediu de desenvolver e aperfeiçoar seu próprio estilo. Por outro lado, em algumas ocasiões solicitou o favor de patronos ricos, sem se tornar submisso a esses, de modo que os tempos de inseguranças e súbitas catástrofes em que viveu não obscureceram sua fama. 

O auge do poeta em uma época turbulenta

Quando Hafez nasceu, Shiraz era parte dos domínios da dinastia Injúida, feldo do mongol Oldjaitu e depois de seu sucessor Abu Said. A morte deste último, em 1335, outorgou ao jovem Hafez, sua primeira experiência de trânsito da glória terrena, pois seu sucessor, Arpa Khan, condenou a morte Mahmud Shah, acontecimento que provocou uma luta pelo poder entre seus quatro filhos, que sucessivamente pereceram de modo violento. 

Em 1343, Abu Ishaq, filho mais novo de Mahmud Shah conseguiu estabelecer sua autoridade em Fars. Dez anos depois, seu inimigo, o Mubarez ud-Din, se apoderou de Shiraz e, posteriormente, de Isfahan, mandando matar seu opositor. Seu domínio durou pouco, pois em 1358, durante uma expedição militar foi capturado por seu próprio filho Shah Shoja. Hafez não pediu os favores do austero Mubarez ud-Din, mas em dois de seus poemas fez elogios a seu primeiro ministro Burhan ud-Din Fath Allah.

Durante o reinado de Shah Shoja, o gênio de Hafez viveu seus anos de culminação. Sendo o soberano, um homem mais liberal que seu predecessor, criou as condições para o desenvolvimento de talentos. Ainda que se diga que as relações entre o poeta e seu patrono nem sempre foram cordiais, Hafez compôs para ele diversos poemas, em quatro dos quais o imortalizou. 

Em 1387, Tamerlão chegou as portas de Shiraz e tomou a cidade, executando a todos da dinastia governante. No entanto o poeta não chegou a ver o terrível final da estirpe que o havia apoiado. Hafez morreu em 1389 (ou 1390) e hoje está enterrado nos jardins de Musalla, às margens do rio Roknabad, tão celebrado em seus poemas.

O encontro de Hafez e Tamerlão

Das relações de Hafez com os governadores de outros países e de seu suposto encontro com Tamerlão, o invencível herdeiro mongol que mesmo iletrado, viveu cercado de pessoas cultas: matemáticos e geógrafos árabes, astrônomos hindus e historiadores persas. Mais uma vez, Gertrude Bell recorre a tradição, segundo a qual, quando Tamerlão invadiu Shiraz, mandou chamar Hafez e lhe perguntou:
“É você que pela pinta na face de uma turca daria minhas maiores cidades, Samarcanda e Bukhara?” O poeta respondeu: “Sim!”. “Como?!”, exclamou o mongol irritado, “eu conquistei a metade do mundo, saqueei cidades, devastei reinos, construindo cidades magníficas para guardar meus troféus, e tudo isto não é nada para um pequeno persa como você! Pela pinta no rosto de uma turca, você daria minhas duas maiores cidades?”. “Senhor”, respondeu Hafez, “devido a esta generosidade, me curvo diante de vós como um pobre mendigo”. Tamerlão sorriu e ofereceu a Hafez as vestes de um poeta laureado."
Não temos dados históricos que confirmem esta tradição, porém o certo é que a época em que viveu Hafez, o fato de haver presenciado tantas turbulências e a incerteza do destino de reis e príncipes o fez cantar:
«De novo os tempos estão fora do alcance; e de novo pelo vinho e pelo olhar  lânguido da amada desfaleço.”

Ilustração de uma edição persa do Divan de Hafez (1969)

🔖(Adaptado de prefácio do livro “Hafez 101-Poemas” (em espanhol), traduzido por Clara Janés e Ahmad Taheri) 

 Dicas de livros com poemas de Hafez de Shiraz: 


Você conhece ou já leu outros livros com poemas de Hafez traduzidos para outros idiomas? Escreva nos comentários. 


LIVE: A Presença de Rumi na Cultura Contemporânea

25/09/2021


NESTE DOMINGO, 26/09 ÀS 17H!

Neste mês de setembro, estamos homenageando o grande poeta persa Jalaluddin Rumi. E o tema da nossa Live mensal é A Presença de Rumi na Cultura Contemporânea.

Como este poeta místico persa que viveu no século XIII se tornou tão conhecido e popular no Ocidente e como seus poemas inspiraram artistas visuais, músicos e cineastas contemporâneos.

Vamos bater um papo e conhecer mais sobre a divulgação da obra de Rumi no Brasil e no mundo.

🔴 A transmissão será ao vivo pelo canal do Chá-de-Lima da Pérsia no  YouTube.

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9 Obras de Rumi Publicadas no Brasil

14/09/2021


Salam amigos! Setembro é o  mês de aniversário do grande poeta místico persa Mawlana Rumi. É notável a crescente admiração do público brasileiro pela obra deste mestre sufi do século XIII, mensageiro de uma sabedoria universal que ultrapassa os limites do tempo e continua influenciando pessoas em todo o mundo! 

Atendendo a pedidos, trago no post de hoje, todas as obras de Rumi que eu encontrei publicadas no Brasil. São 9 livros, desde exemplares raros publicados pela Edições Dervish nos anos 1990, para os iniciados no sufismo, até seleções e traduções inéditas  dos poemas de Rumi por Marco Lucchesi, José Jorge de Carvalho e Rafael Arrais para o público em geral.  


Fihi Ma Fihi: O livro do interior 

Tradução de Margarita Garcia Lamelo
Edições Dervish, 1993


Tradução da principal obra em prosa de Rumi, a partir da tradução francesa do original persa por Eva de Vitray-Meyerovitch. Fihi-Ma-Fihi, que literalmente significa “Nele o que está nele” é uma coletânea de conversas de Rumi com seus discípulos e diferentes personagens da época em que ele viveu. 

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Masnavi

Tradução: Mônica Udler Cromberg e Ana Maria Sarda;
 prefácio de Omar Ali-Shah. Edições Dervish, 1992.


O Masnavi que significa "dísticos" (poemas com versos de duas estrofes), é a obra mais importante de Rumi. Conhecido como o “Alcorão Persa”, é uma coleção poética de anedotas e histórias que incorpora uma variedade de sabedoria islâmica, mas se concentra principalmente em enfatizar a interpretação sufi pessoal interior. 
  • Indisponível no momento
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A Sombra do Amado: Poemas de Rûmî

Introdução e tradução: Marco Lucchesi e Luciana Persice.
 Editora Fissus, 2000


Mais do que um conjunto de traduções primorosas, o poeta e escritor Marco Lucchesi faz aqui um livro sobre Rumi. As vivências de Rumi com seu Amigo Divino relatadas ao longo do volume e sistematizadas na fórmula "O mundo é apenas Um, venci o Dois", são um dos pontos mais altos de toda a lírica humana, ocidentoriental..." 
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O Canto da Unidade: Em torno da poética de Rûmî

Tradução Marco Lucchesi e Rafi Moussavi. 
Editora Fissus, 2007



Este livro reúne poemas traduzidos por Marco Lucchesi e Rafi Moussavi que expressam a grande riqueza da obra lírica de Rumi. Além disso, Lucchesi relata no seu Diário a experiência e as sutilezas do trabalho de tradução. Também apresenta artigos de Faustino Teixeira, Leonardo Boff, Mário Werneck Filho e Heliane Miscali. 

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A Flauta e a Lua: Poemas De Rumi

Tradução de Marco Lucchesi e fotos de Riccardo Zipoli
Editora Bazar do Tempo, 2016


Nova edição reunida de A sombra do amado: poemas de Rûmî e O canto da unidade: em torno da poética de Rûmî, A flauta e a Lua se completa com estudos críticos dos teólogos Leonardo Boff e Faustino Teixeira, e um vigoroso ensaio fotográfico em torno das terras e paisagens do Irã assinado pelo fotógrafo italiano Riccardo Zipoli.
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Onde Dois Oceanos se Encontram

Tradução James G. Cowan
 Editora  Gente, 1999



Uma Seleção de Odes do Divã de Shams de Tabriz por Mawlana Jalaluddin Rumi. 
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A Flauta e a Lua: Poemas De Rumi

Seleção, introdução e tradução: José Jorge de Carvalho
Attar Editorial, 2006


Este livro é composto de 79 poemas selecionados de uma obra com mais de cinco mil. Estes refletem a intensidade místico-amorosa e a força partilhada entre o encontro de Rumi e Shams de Tabriz.
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A Flauta e a Lua: Poemas De Rumi

Seleção, tradução e comentários: Rafael Arrais
 Textos para Reflexão, 2019


Os poemas traduzidos desta obra foram selecionados e traduzidos do inglês (principalmente das versões de Edward Henry Whinfield e Reynold. A Nicholson) por Rafael Arrais. O tradutor procurou evitar na obra poemas já publicados no Brasil em português. 
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Rumi - Além das ideias de certo e errado

Seleção, tradução e comentários: Rafael Arrais.
 Textos para Reflexão, 2021


Dando continuidade ao que foi iniciado em Rumi: A dança da alma, o tradutor, que é praticante do sufismo, se aprofunda ainda mais nos abismos poéticos de Rumi, enquanto aproveita para complementar o livro com alguns poemas de Shams de Tabriz (o grande amigo de Rumi) e Rabia Basri (a santa sufi que o precedeu e inspirou). 
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Se você conhece mais algum livro com poemas de Rumi ou se já tem algum desses livros escreva sua avaliação nos comentários! 

Setembro, o mês de Rumi

12/09/2021

Setembro, mês de Rumi

       "O mundo é apenas Um, venci o Dois." (Rumi)


Setembro é o mês de aniversário de Jalaluddin Mohammad Balkhi (1207-1273), mais conhecido no Ocidente como Rumi, no Irã como Molavi e na Turquia como Mevlana.

Rumi  nasceu na Pérsia e viveu a maior parte da sua vida em Konya na Turquia, onde fundou a famosa ordem dos dervixes rodopiantes. Brilhante teólogo, poeta e místico Sufi, Rumi passou por uma transformação espiritual em 1244, após o encontro com Shams de Tabriz. 

Em uma época atormentada por guerras e calamidades, Rumi defendia a tolerância ilimitada, a bondade, a caridade e a consciência de si por meio do amor. Seus ensinamentos pacíficos e tolerantes impactaram pessoas de todas as religiões e até hoje continuam influenciando pessoas em todo o mundo.

Este mês, vamos conhecer um pouco mais sobre a vida, ensinamentos, obra e influência de Rumi na cultura contemporânea.


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