Descendentes de escravizados no Irã: uma história desconhecida

19/09/2017

Crianças afro-iranianas (foto: Behnaz Mirzai)
Salam amigos! Um artigo publicado originalmente no site Middle East Eye, revela uma faceta pouco conhecida da formação do povo iraniano. Embora sejam uma das minorias étnicas, há uma presença expressiva de afrodescendentes especialmente no sul do país. Aqui no blog, já mostramos o trabalho do fotógrafo Mahdi Ehsaei revelando sob um viés artístico os povos afro-iranianos, e hoje vamos conhecer o trabalho de uma pesquisadora que investiga história dos descendentes de escravizados no Irã. 
A historiadora iraniana radicada canadense Behnaz Mirzai é uma grande especialista sobre a diáspora africana no Irã. Tendo iniciado sua pesquisa há mais de 20 anos, ela afirma que este ainda é um tópico pouco conhecido dentro de seu país de origem: “Durante todo o tempo que morei no Irã, nunca ouvi falar sobre a escravidão no Irã.”
A historiadora Behnaz Mirzai, que há 20 anos pesquisa a diáspora africana no Irã
(foto: MidleEastEye)
Mestra em história iraniana e islâmica, pela Universidade Azad de Teerã, Mirzai se mudou para o Canadá em 1997, quando encontrou o professor Paul Lovejoy, na Universidade de Toronto que a incentivou a enveredar sua pesquisa sobre este tema. E após contatar seus antigos professores no Irã, ela descobriu que realmente o país teve uma história de escravidão africana, e ainda existem arquivos com documentos provando o fato. “A escravidão não estava integrada na história do Irã... em termos de conhecimento das pessoas comuns ou mesmo entre acadêmicos ele era muito limitado, ou naquela época era zero,” diz a historiadora. “Não havia artigos nem livros escritos; era algo muito novo”.
O comércio entre o moderno Irã e os países da África remonta a muitas centenas de anos. Porém, segundo a pesquisa de Mirzai que é focada especialmente no período moderno, a escravidão no Irã compreendeu dois períodos principais: a Dinastia Qajar (1795-1925) e os primeiros anos da Dinastia Pahlavi (1925-1979). Ela explica que os mercadores árabes do Golfo, dominado pelo Sultanato de Omã – que controlavam vastas regiões nas costas do Oceano Índico -  trouxeram para o Irã escravizados do norte e nordeste do continente africano, incluindo Tanzânia (Zanzibar), Quênia, Etiópia e Somália.Na antiga literatura islâmica, os etíopes eram conhecidos como al-Habasha (abissínios). Como resultado, muitos escravizados adotaram o sobrenome “Habashi” quando vieram para o Irã, para indicar sua origem. Os escravizados que vinham de Zanzibar, por sua vez, adotaram o sobrenome Zanzibari. Em grande parte concentrados na costa sul do Irã, eles trabalhavam predominantemente na pesca e agricultura, ou como empregados domésticos, enfermeiros, ou até mesmo soldados.
Foto tirada na corte de Nasir al-Din Shah, durante a dinastia Qajar em Teerã no séc. XIX.
As crianças negras, filhos de servos, eram chamadas de khanezadeh (nascidos em casa).
(Imagem: acervo de Behnaz Mirzai) 
 Porém, os africanos não foram os únicos a serem escravizados no Irã. “No Irã, a escravidão não era baseada na raça (...), havia escravizados circassianos e georgianos, além de muitos iranianos que viviam em um estado de extrema pobreza...”, diz Mirzai. A abolição da escravidão no país começou em 1828 com o fim do tráfico de circassianos e georgianos e a prática se encerrou exatamente um século depois.  Hoje em dia, cerca de 10 a 15% da população do sul do Irã pode ser considerada afrodescendente.  Muitos membros dessa comunidade afro-iraniana, termo cunhado por Mirzai em sua pesquisa, sequer conhecem a história de suas famílias ou suas próprias origens. Eles são geralmente referidos como os “negros do sul” e muitos iranianos ainda acreditam que a cor escura de sua pele é resultado do sol inclemente das costas do sul do país. 
Os afro-iranianos consideram a si mesmos simplesmente como iranianos e às vezes sentem-se incomodados com questões sobre suas origens africanas.  "Eu perguntei a eles anteriormente, o que vocês se consideram? E eles disseram, ‘somos iranianos’. Se eu fizesse alguma pergunta relacionando-os com africanos, eles se sentiriam ofendidos... como se você estivesse tentando dizer que eles não são iranianos” diz a pesquisadora.  Em um dos filmes produzido por Mirzai, Afro-Iranian Lives, um homem chamado Mohamad Durzadeh disse que sua família está no Irã desde os tempos de seu avô. Quando perguntado de onde seus ancestrais vieram ele responde: “Eles estavam aqui [no Irã]”.  Um outro homem no mesmo filme, cujo nome não foi identificado, explica que há distinções entre as famílias afro-iranianas: “Os Durzadehs se acham superiores aos Ghulam e aos Nukar. Eles acreditam que os Ghulams eram escravizados, mas os Durzadehs eram livres”. 
Homens participando da cerimônia do Zar, em Khorramanshahr, província de Khuzestan
(Foto: Behnaz Mirzai) 
 O desconhecimento sobre os afro-iranianos, faz com que os iranianos de outras partes do país vejam a estes como estrangeiros (um exemplo perfeito é o filme Bashu, o Pequeno Estrangeiro do qual já falamos aqui no blog). Porém, Mirzai diz que apesar de incomum, ela documentou alguns casamentos entre afro-iranianos e iranianos de outras etnias.
Os afro-iranianos atualmente estão bem integrados nas regiões onde vivem. Por exemplo, as comunidades da província de Sistan e Baluchistan falam o dialeto local, baluchi, enquanto as comunidades da província de Hormozgan falam o dialeto bandari. Por outro lado, as comunidades afro-iranianas atuais mesclam tradições africanas com a cultura iraniana, incluindo um ritual de exorcismo conhecido como Zar, que também é praticado na Tanzânia e Etiópia. 
Por fim, Mirzai conclui: “Para mim, o mais importante é mostrar que eles são iranianos, um lado diferente do Irã; que o Irã é muito diverso e que há muitos grupos étnicos vivendo no Irã. Eles têm sua própria cultura e identidade específicas.”
Mulheres e crianças afro-iranianas da província de Sistan e Baluchistan
(Foto: Behnaz Mirzai)
(Adaptado do artigo de Jillian D’Amours para o site Middle East Eye)

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