"De Táxi no Irã"

15/11/2019

Crédito da imagem: Rafael Robles (Flickr)
Sidney Dupeyrat de Santana
Era uma fria e chuvosa noite de outono no Irã. Ia de Ramsar para a capital Teerã num táxi compartilhado com mais três pessoas. Comigo no banco de trás, um casal bonito e jovem. No carona, do lado do motorista e na minha frente, uma elegante senhora.

Apesar da estrada boa, as condições de viagem não eram exatamente as ideais. A chuva incessante tornava o asfalto escorregadio, e a falta de iluminação aumentava a sensação de insegurança durante um caminho tortuoso.

Para esquecer a preocupação, tento estabelecer uma comunicação com o casal ao lado, mas eles não falam uma palavra de inglês. Resolvo então prestar atenção ao motorista, e percebo um homem encantadoramente insano. O celular toca, ele atende e fala alto enquanto gesticula agitadamente. Depois desliga, e começa a enviar mensagens de texto. Cansa de digitar e puxa um cigarro do bolso. Hora de trocar a estação do rádio. Opa, o celular tocou de novo. A única coisa que ele não faz é pôr as duas mãos no volante e olhar atentamente a estrada.

Apesar da situação teoricamente preocupante, não consigo não começar a rir. Grande, gordo e completamente caricatural, o taxista persa parece um personagem saído de um filme policial americano dos anos 80. Tento esconder o riso, já que não quero que o homem descubra que estou achando graça dele. Mas, de repente, os iranianos do lado percebem a situação, olham para o motorista e começam a rir também. Quando me dou conta, estamos os três no banco de trás gargalhando e com lágrimas nos olhos de tanto rir. Viramos cúmplices.

Iniciamos a conversa possível entre pessoas que não falam um idioma em comum, e quando o rapaz entende que sou do Brasil, saca sorrindo de dentro da camisa uma corrente com um crucifixo. Cristão, como a maioria dos brasileiros. A senhora no banco da frente fica surpresa com a minha origem e diz num inglês impecável: "Brasil? Eu morei por uns meses em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, no final dos anos 70". Na minha cidade. No meu bairro. E emenda: "Do que eu mais gostava? Do carnaval e das roupas coloridas das pessoas".

Ganhei uma amiga de longa data. Vamos então trocando ideias sobre a visão iraniana do Brasil de ontem e a visão brasileira do Irã atual. Mas logo Teerã se aproxima, e eu preciso encontrar uma forma de chegar ao meu destino final. Na minha mão, um endereço com letras e números que sou incapaz de compreender. Passo o papel para o casal e a senhora. Depois de uma rápida discussão em persa, fica decidido que a mulher vai me acompanhar no táxi até o final. Vem a rodoviária, dou adeus ao casal. Chega o meu destino, e eu agradeço à senhora com um sorriso e um impossível "até logo".

E subo a escadaria do prédio pensando no quão pequeno é o mundo. Qual é a diferença de um brasileiro do Chuí para um uruguaio do Chuy? E de um americano para um iraniano? Independente da origem, temos sempre muita coisa em comum. Podemos não falar o mesmo idioma, mas todos nos entendemos na linguagem universal do riso. E compartilhamos valores comuns, como a solidariedade e o gosto pela alegria. A palavra "conterrâneo" deveria ter o seu significado modificado no dicionário. E não mais dar nome àqueles que nasceram num mesmo local delimitado por fronteiras artificiais criadas pelo homem. Mas sim, nomear os seres vivos que compartilham esse local tão bonito e, ao mesmo tempo, tão caótico que é o nosso planeta.

Este é o quarto artigo enviado gentilmente por Sidney Dupeyrat de Santana, contando seus relatos de viagem ao Irã em 2013. Saiba mais sobre o autor: 

Instagram: @sidneydupeyrat

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Um comentário:

  1. Gostei demais do relato e principalmente da reflexão, aprendizados que só aqueles que abrem o coração podem vivenciar!

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