Como os filmes iranianos mostram os afegãos

22/08/2021

Como os filmes iranianos mostram os afegãos

Salam amigos! Recentemente o Afeganistão, país vizinho do Irã, voltou a ser destaque das principais notícias internacionais. Com a retomada do país pelo Talibã após 20 anos, nos questionamos, qual será o futuro do povo afegão?

Atualmente, o Irã é um dos países que mais abriga refugiados afegãos no mundo.

A  primeira onda de refugiados foi admitida no Irã após o início da invasão soviética em 1979. Em setembro de 1996, a milícia Talibã assumiu o poder em grande parte do território do país e instaurou um  regime brutal de censura e repressão.

Mesmo com a queda do Talibã, após a invasão norte-americana em 2001, devido a situação econômica de um país destruído por guerras, milhões de afegãos continuaram buscando por melhores condições de vida no Irã e em outros países vizinhos.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), havia cerca de 780.000 refugiados registrados afegãos residindo no Irã em outubro de 2020, a maioria dos quais nasceu e cresceu no Irã durante as últimas quatro décadas. Porém, dados do governo iraniano estimam que podem haver mais de 2,5 milhões de afegãos entre registrados e ilegais vivendo no país.

Desde o final da década de 1980, o cinema iraniano buscou retratar a situação  do povo afegão de várias maneiras. Há filmes que representam o drama dos refugiados afegãos no Irã que enfrentam situações degradantes de trabalho e a ameaça de deportação. Mas também há filmes que mostram estes mesmos afegãos como membros da sociedade iraniana, como amigos valorosos e até mesmo amores impossíveis. Por fim, há cineastas iranianos que viajaram ao Afeganistão para retratar a realidade do país.


Vamos recordar 12 filmes iranianos, de clássicos a atuais que mostram a situação do povo afegão:


 1- O Ciclista (1988) 

Nasim, o primeiro protagonista afegão do cinema iraniano em  O Ciclista (1987).

Uma das primeiras representações de um personagem afegão no cinema iraniano ocorre em 1987, com o filme "O Ciclista" (Bicycleran) de Mohsen Makhmalbaf. Neste clássico, Makhmalbaf explora as condições dos refugiados afegãos que vivem nos subúrbios das cidades iranianas. 

O personagem principal, um pobre refugiado afegão e ex-campeão de ciclismo chamado Nasim (Moharrem Zinal Zadeh), decide andar de bicicleta sem parar por sete dias e sete noites na praça da cidade a fim de arrecadar dinheiro para o tratamento de sua esposa doente

O filme é o primeiro a trazer à luz a situação dos refugiados afegãos no Irã e mostra as condições econômicas desesperadoras e de exploração que  estes sofrem frequentemente. 

Após o filme de Makhmalbaf, a figura do afegão tornou-se um motivo cinematográfico recorrente. Nos anos subsequentes, os personagens afegãos não eram mais mostrados isoladamente, mas cada vez mais como membros da sociedade interagindo com personagens iranianos.


Assista o filme O Ciclista (legendado em português)


2- O Balão Branco (1996) 

O menino afegão em O Balão Branco (1996)

O filme de 1996 de Jafar Panahi, O Balão Branco (Badkonak-e Sefid), também retrata o refugiado afegão de forma positiva. 

Na história, a pequena Razieh, deseja comprar um peixinho dourado para as celebrações de Nowruz (Ano Novo Persa), mas no caminho ela deixa o dinheiro cair em um bueiro e não consegue recuperá-lo. Com medo de levar uma bronca da mãe, ela não ousa voltar para casa sem antes recuperar o dinheiro.

 Ao longo do filme, a menina conhece estranhos que se oferecem para ajudá-la, e um deles é justamente um menino afegão (Aliasghar Smadi) que vende balões. Na conclusão do filme, as três crianças finalmente obtêm o dinheiro perdido e o menino afegão é um dos heróis da história.


3- Gosto de Cereja (1997)

O seminarista afegão em "Gosto de Cereja" (1997)

Um ano depois, o filme  de Abbas Kiarostami, Gosto de Cereja ( Ta’m-e Gilas), ofereceu uma narrativa renovadora dos próprios refugiados afegãos. 

No filme, o personagem principal Sr. Badi (interpretado por Homayoun Ershadi) é um homem de meia-idade que dirige por Teerã em busca de possíveis candidatos que queiram ajudar na estranha tarefa de enterrá-lo depois que ele cometer suicídio. 

Em uma cena o Sr. Badi conversa com um vigia de construção e em outra passeia de carro com um seminarista (Hossein Nouri), ambos afegãos. Ao incluir personagens afegãos no filme, Kiarostami sugere que os refugiados afegãos (junto com outras minorias) se tornaram parte do mosaico diversificado da sociedade iraniana. Também permite que estes finalmente falem de sua situação como refugiados, algo que antes era negado na cultura popular iraniana.


Assista o filme Gosto de Cereja (legendado em português)


4- A Caminho de Kandahar (2001)

A jornalista afegã em A Caminho de Kandahar (2001)

Em 2001, o cineasta Mohsen Makhmalbaf retoma novamente a temática dos afegãos em seu filme A Caminho de Kandahar (Safar-e Ghandehar), que foi filmado no próprio Afeganistão, desta vez com uma protagonista feminina. 

O filme conta a história de de Nafas (Niloufar Pazira), uma jornalista afegã radicada no Canadá que empreende uma viagem desesperada para ao seu país natal a fim de impedir o suicídio da irmã, que já não tem vontade de viver sob a opressão do Talibã. Vestida com a burqa, Nafas é conduzida através do deserto por uma família de refugiados que é roubada por milicianos, um garoto expulso da escola corânica, um afro americano que faz as vezes de médico num vilarejo e um homem mutilado por uma mina. 

A Caminho de Kandahar tem valores que ultrapassam o caráter meramente documental. O diretor  empregou  no elenco, refugiados afegãos que vivem na fronteira com o Irã. A protagonista é mesmo uma jornalista que mora no Canadá. Niloufar pediu a Makhmalbaf ajuda para entrar no Afeganistão e retirar de lá uma amiga. Como o diretor não pôde atendê-la na ocasião, mais tarde sugeriu que filmassem uma versão ficcionalizada dessa história. O filme recebeu a medalha de ouro Fellini, concedida pela Unesco.

5-Baran (2001)

Uma jovem afegã é a protagonista do filme Baran (2001)

O filme de 2001 de Majid Majidi, Baran, concentra-se principalmente nos refugiados afegãos ilegais que trabalham nos arredores de Teerã, e aborda um tema delicado, a história de amor entre um iraniano e uma afegã. 

Latif (Hossein Abedini), um jovem iraniano azeri trabalha  em uma construção servindo comida e chá para os pedreiros. Quando Najaf (Gholam Ali Bakhshi), um dos trabalhadores afegãos, sofre um acidente durante o trabalho e quebra a perna, seu filho Rahmat (Zahra Bahrami), passa a substituí-lo na construção e nasce uma rivalidade entre ele e Latif. Porém, ao descobrir que Rahmat, é na verdade uma menina chamada Baran disfarçada de menino, Latif apaixona-se por ela e passa a protegê-la. 

A história revela muitas facetas das dificuldades que os afegãos enfrentam a cada dia como refugiados em um país estrangeiro, mas também revela a solidariedade dos iranianos que tentam ajudá-los, como o mestre de obras Memar (interpretado por Reza Naji).

Assista o filme Baran (legendado em espanhol)


6- Alfabeto Afegão (2002)

Crianças afegãs refugiadas na fronteira do Irã em Alfabeto Afegão (2002)

A experiência do diretor Mohsen Makhmalbaf de se dedicar pessoalmente à fundação de uma escola para crianças afegãs refugiadas na fronteira com o Irã, resultou no documentário Alfabeto Afegão (Alefba-ye Afghan) que aponta a educação como único caminho para mudar a percepção das pessoas frente aos reais problemas políticos e sociais do país e para questionar a imposição de valores culturais no Afeganistão. 

Utilizando uma câmera digital, o diretor faz as filmagens e também a narração do documentário. Algumas das cenas mais marcantes são a do menino mutilado por uma mina terrestre que se posta a porta da sala de aula para tentar aprender o alfabeto, assim como a menina que se recusa a tirar a burqa na sala de aula por acreditar que estaria cometendo um pecado. 

Segundo o diretor Makhmalbaf "o Talibã não foi apenas um regime político do Afeganistão, mas continua sendo uma cultura. As pessoas do Afeganistão precisam de educação. E elas continuam prisioneiras da miséria, da ignorância, dos preconceitos, do machismo e das superstições. 95% das mulheres e 80% dos homens não tiveram chances de ir à escola mesmo antes do surgimento do regime Talibã."


7-Delbaran (2002)

O jovem refugiado afegão Kaim em cena de Delbaran (2002)

Delbaran de Abolfazl Jalili também retrata a vida de jovens afegãos que não têm outra escolha a não ser trabalhar e, portanto, são privados de sua infância como resultado da guerra em sua terra natal e da falta de acesso à educação ou serviços sociais no Irã. 

O filme conta a história de um refugiado afegão de 14 anos chamado Kaim (Kaim Alizadeh), que ficou órfão depois que sua mãe morreu em um bombardeio aéreo e seu pai foi morto lutando pela Aliança do Norte.

Kaim foge para a fronteira onde trabalha em uma parada de caminhões na cidade iraniana de Delbaran. Enquanto o menino se sente seguro em Delbaran, os sons dos aviões de guerra constantemente o lembram de sua situação precária. Ao longo do filme, os telespectadores são bombardeados com o duro realismo de viver o dia-a-dia como um trabalhador ilegal, sem nenhuma perspectiva para o futuro.


Veja uma cena do filme Delbaran (em inglês)


8- Às Cinco da Tarde (2003)

Noqreh, a jovem de Cabul em Às Cinco da Tarde (2003)

"Às Cinco da Tarde" (Panj-e Asrfoi o primeiro filme a ser realizado em Cabul, capital do Afeganistão, após a invasão norte-americana, dirigido pela prestigiada cineasta iraniana Samira Makhmalbaf.)

Após a queda do regime Talibã no Afeganistão, a jovem Noqreh (Aghele Rezaei) esforça-se por dar o melhor uso à sua recém-liberdade. Ao entrar escondida na escola, devido à desaprovação de seu pai, ela descobre a poesia do espanhol Federico García Lorca (de onde vem o título do filme), e animada com os estímulos de professores e antigos exilados sonha tornar-se a primeira mulher presidente do Afeganistão. No entanto, terá que lidar com a dura realidade do seu país, com seu pai conservador e com a situação de sua cunhada que por não ter o que comer já não consegue amamentar o bebê.

Como protagonista deste filme a diretora Samira escolheu pessoas comuns de Cabul. Segundo ela "foi difícil convencer a muitos deles a participarem do filme, já que a queda do Talibã era um evento muito recente".


9- E Buda Desabou de Vergonha (2007)

A pequena  Bakhtai em E Buda Desabou de Vergonha (2007)

"E Buda Desabou de Vergonha" (Buda az sharm foru rikht) foi  o primeiro filme escrito e dirigido pela jovem diretora Hana Makhmalbaf. Filmado no Afeganistão, em meio às ruínas dos monumentais Budas de Bamyan, destruídos pelo Talibã em 2001, tem como protagonista Bakhtai (Nikbakht Noruzi), uma garotinha de 6 anos da etnia hazara.

A pequena Bakhtai fica obcecada com a ideia de ir para a escola ao ver seu amigo Abbas (Abbas Alijome) que lê em voz alta na frente da caverna vizinha onde ela vive. Primeiro, ela tem o desafio de conseguir algum dinheiro para comprar um caderno e um lápis. Finalmente, à caminho da escola, ela é importunada por um bando de garotos que brincam de guerra, imitando inclusive os terríveis atos dos Talibã. 

O título do filme foi inspirado por uma fala do pai da diretora, Mohsen Makhmalbaf: “Até mesmo uma estátua pode ter vergonha de toda essa violência e dureza e, portanto, desabar [...] O estado de desnecessidade e calma de Buda tornou-se envergonhado diante de uma nação que precisava de pão e assim ele desabou. ”


Assista o filme "E Buda Desabou de Vergonha" (legendado em português)


10 - Cavalo de Duas Patas (2008)

O jovem cruelmente explorado pelo pequeno patrão em Cavalo de Duas Patas (2008)

Escrito por Mohsen Makhmalbaf e dirigido por Samira Makmalbaf  "Cavalo de duas patas" (Asbe du-pa) filmado no Afeganistão em 2008 é um filme chocante e controverso. Diferente de outros filmes, este retrata os afegãos da etnia uzbeque.

Guiah (Ziya Mirza Mohammad) um garoto órfão e deficiente mental, que mora em uma tubulação de esgoto abandonada, aceita trabalhar por um dólar por dia carregando nas costas o filho aleijado de um homem rico da região (Haron Ahad). Submetido a um tratamento humilhante por seu pequeno patrão, como chicotadas e até mesmo comer feno, o rapaz acaba tornando-se literalmente seu "cavalo".  

Segundo a diretora, Samira Makhmalbaf, este foi o seu filme mais difícil de fazer, não só pela crueldade do roteiro que explora os limites do sadismo, como metáfora do abuso de poder dos governantes contra o seu povo, mas também pelo fato de a diretora quase ter sido alvo de um atentado a bomba durante as filmagens no Afeganistão.


11 - A Canção dos Pardais (2008)

Ramezan, o velho amigo afegão de Karim em A Canção dos Pardais (2008)

Dirigido por Majid Majidi, "A Canção dos Pardais" (Avaz-e Gonjeshk-ha)  não apresenta a temática dos refugiados afegãos como tema principal, mas coloca um personagem afegão inserido na sociedade iraniana como um dos melhores amigos do protagonista. 

Karim (interpretado por Reza Naji) é um zeloso pai de família que tem uma vida simples na zona rural. Um dia, ele é demitido da fazenda onde trabalha por perder o avestruz de seu patrão. Quem o consola é seu velho amigo afegão Ramezan (Hassan Rezaei), que dá de presente a ele um dos ovos do avestruz. 

Em outra cena, Karim se despede de Ramezan que vai ao santuário de Mashhad rezar por ele, antes de voltar ao Afeganistão. Assim que o amigo afegão retorna, como que por milagre, o avestruz perdido é encontrado e os problemas de Karim são solucionados. 


12- Crianças do Sol (2020) 

A amizade entre a menina afegã Zahra e o menino iraniano Ali em Crianças do Sol (2020)

E para finalizar a nossa lista, o filme mais recente de Majid Majidi, "Crianças do Sol" (Khorshid) de 2020, também demonstra mais uma vez a simpatia do diretor iraniano pelos refugiados afegãos em seu país, inserindo-os no núcleo dos personagens principais da trama. 

No filme, Ali (Ruhollah Zamani) um garoto pobre de 12 anos, ganha a vida fazendo serviços corriqueiros em uma oficina mecânica e às vezes cometendo pequenos delitos. Encarregado de encontrar um suposto tesouro, que estaria escondido em uma instituição de caridade chamada Escola do Sol.

Em uma das cenas, o herói professor (interpretado por Javad Ezzati) acompanha Ali e seu pequeno amigo afegão Abolfazl (Abofazl Shirzad) para resgatar Zahra (Shamila Shirzad), a irmã deste, que foi presa por vender bugigangas no metrô. Quando o professor vê que os cabelos da menina afegã foram raspados, fica tão indignado que dá uma cabeçada no guarda da delegacia. Quando ele leva a garota para casa, vemos a cena de um precário cortiço onde dezenas de famílias afegãs vivem.

O carinho e proteção de Ali, o menino iraniano, por Zahra, a menina afegã, assim como sua despedida, também parece retomar a narrativa do amor impossível entre Latif e Baran, como já vimos em outro filme do diretor Majidi. 
Este filme foi apresentado na 44ª Mostra Internacional de Cinema de SP


A maioria dos filmes citados neste post estão disponíveis na minha playlist de filmes no You Tube, porém  alguns que eu havia divulgado aqui no blog anos atrás infelizmente foram removidos. 
Sempre que eu encontrar  novidades sobre filmes iranianos legendados, disponibilizarei aqui no blog. 

Qual destes filmes você já assistiu? Deixe o seu comentário! 

🔗Fontes (últimos acessos em 21/08/2021):

Far From Home: Portrayals of the Afghan Refugee in Iranian Cinema | Ajam Media Collective

Makhmalbaf Family Official Website (Afghan Alphabet | At Five in the Afternoon | Budda Collapsed Out of Shame | KandaharThe Cyclist | Two Legged Horse)

 44 ª Mostra Internacional de Cinema de SP - Crianças do Sol


📚Para saber mais sobre o cinema iraniano leia: 

O Novo Cinema Iraniano por Alessandra Meleiro. Escrituras, 2006.
Caminhos de Kiarostami por Jean-Claude Bernardet.  Cia das Letras, 2004. 

📚 Sugestões de livros sobre o Afeganistão:

O Caçador de Pipas por Khaled Hossein.  Globo Livros, 2013
A Cidade do Sol por Khaled Hossein. Globo Livros, 2017
O Livreiro de Cabul por Åsne Seierstad . Best Seller, 2019
O Forte das Nove Torres por Qais Akbar Omar. Objetiva, 2014
O Salão de beleza em Cabul por Deborah Rodriguez. Elsevier, 2007
O Afeganistão depois do Talibã por Adriana Carranca. Civilização Brasileira, 2011

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2 comentários:

  1. Boa Noite cara Moça do Chá, grata por tanta beleza na forma e conteúdo de seu Blog, ricas informações e nos repassadas de forma tão caprichosa, cuidadosa, agradável de se ler, ver, apreciar, apreender. Grande abraço.

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  2. Parabéns pela sua programação de hoje no Instagram que vc nos traz aqui no seu blog - desde a ideia - Como o cinema iraniano mostra os afegãos - até o desenvolvimento dela! Você nos falando no Instagram esteve muito bem, pena que eu fiquei caindo a todo instante. Aqui poderei resgatar muito do que perdi de texto. Terna e eterna gratidão por você nos levar às entranhas da cultura persa, ao Irã de hoje.

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